HACKENSACK
Você compreende Thelonious Monk?
Não. Você não o entende.
Até lhe desagrada e o inquieta
aquela forma esquisita
de ter o passo oblíquo e trôpego
e de deixar tombar a nota
não quando você a espera,
mas um momento antes ou depois,
sempre depois se a espera antes,
sempre antes se a espera depois.
Não finja. Eu sei que o incomoda
e o irrita o modo impertinente
com que faz rilhar o dente
ao piano, com que pulveriza
as semibreves. De Dinah
a Bolivar blues não se vai
nas cordas doces de um violino;
tem de se ir pisando duro
mas com cautela e precaução
doseando silêncio e som
opondo ao vazio mensuração.
Rui Knopfli
Mangas Verdes com Sal (1969)
(Thelonious Monk, fotografia de Francis Wolff)
30 de julio de 2026
Rui Knopfli - Hackensack
23 de julio de 2026
Mia Couto y África
Hoje eu sei, África rouba-nos o ser, e nos vaza sempre de maneira inversa, enchendo-nos de alma.
Mia Couto
4 de julio de 2026
«Alda Pinto Teixeira em Lourenço Marques, anos 1950»
«Alda Pinto Teixeira em Lourenço Marques, anos 1950», entrada publicada en el blog The Delagoa Bay World el 22/06/2012.
23 de mayo de 2026
Unas fotografías de Ricardo Rangel
«With Euro-Afro-Asian roots, Ricardo Achiles Rangel was born in Lourenço Marques, now Maputo, in 1924. He died in 2009.» (Afronova)
15 de abril de 2026
Mia Couto - «Terra Sonâmbula»
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eran cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aquí, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distancia. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. (...)
Mia Couto
Primeiro capítulo. A estrada morta, in Terra Sonâmbula. Caminho, Lisboa, 8ª edição, 2004 (1ª edição, 1992)
(Fotografía y texto de Mandreas Artin / Andreas Martin)
13 de abril de 2026
«Palavras africanas»
Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.
(Crença dos habitantes de Matimati)
O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.
(Fala de Tuahir)
Leído en Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Caminho, Lisboa, 8ª edição, 2004 (1ª edição, 1992)
25 de febrero de 2026
Isabela Figueiredo - «A forma como olhámos para as nossas mãos na infância…»
A forma como olhámos para as nossas mãos na infância, e a forma como olhamos para elas, agora; estou a olhar para as minhas mãos agora, não muda. As mesmas mãos. Como puderam envelhecer e ser ainda as mesmas? As unhas iguais. Os nós dos dedos. Os mesmos olhos. O mesmo pensamento, quando olhamos, com os mesmos olhos, as mesmas mãos.
A partir de certa idade, muito cedo na infância, já somos nós, o que há-de perseguir-nos sempre.
Isabela Figueiredo
Caderno de Memórias Coloniais, Caminho, 2015, 7ª edição (1ª ed., Angelus Novus, 2009)
14 de octubre de 2025
José Eduardo Agualusa - «O ciclista»
O CICLISTA
O passado é como o mar: nunca sossega. As casas en-
colhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem
sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos
anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores
gigantescas e sufocando de terror à sombra delas as
casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reco-
nhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças, ou o quintal, que sempre julgá-
mos ser imenso, e que tem, afinal, apenas dois palmos
de fundo.
O meu pai dizia-me: «A vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para
trás enquanto corre arrisca-se a tropeçar.»
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos
fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente
caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e
jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos
livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam
para onde vou encolho os ombros. Rio-me: «Adiante.»
O mundo é infinito para quem viaja a pé. Eu viajo a
pé, à boleia de algum camião, ou de bicicleta. Andando
de camião, ou de bicicleta, o mundo parece um pouquinho menor, mas ainda assim, digo-lhe, meu bom
amigo, é uma imensidão. Não tenho muitos estudos.
Aprendi a ler e a contar, pouco mais. Raramente leio o
que quer que seja. Quando encontro algum jornal
lanço uma vista de olhos à página da necrologia. Como
não conheço ninguém, como ninguém espera por mim
em parte alguma, choro pelos desconhecidos, aqueles
que me parecem mais simpáticos, vou pelo semblante,
entende?, isto se a fotografia do defunto estiver bem
impressa, ou então pelo nome. Há sempre algum José
por quem chorar. Não choro de pena. Choro apenas
para praticar. Enquanto viajo conto os quilómetros
para eludir o tédio. Desconheço o que me espera quando cruzo uma fronteira. Impus a mim mesmo uma condição: não passar duas vezes pela mesma estrada.
Cheguei há uma semana do Huambo. O senhor conhece?... Nasceu lá?! Extraordinária coincidência, sim,
extraordinária coincidência, é que eu também nasci
numa cidade chamada Huambo, mas muito longe
deste país, nas montanhas do Peru. Tinha uma leprosaria que o Che Guevara visitou. Não há lugares repetidos. Só os nomes se repetem. Quer saber como faço
para sobreviver? Estou atento. Há poucos dias um camponês disse-me apontando em redor: «Tudo o que não é mato engorda.»
Concordo. Veja bem: as mangas. Durante um mês,
enquanto atravessei o Congo, comi apenas mangas.
Só o perfume das mangas, se forem doces, já alimenta.
Isso, ou um canavial a arder. Goiabas maduras. Também
se pode sobreviver muito tempo comendo unicamente
milho ou feijão. Um homem em andamento não morre
de fome. Entrei em Angola, pedalando esta bicicleta.
Não sabia que o país estava em guerra. É como lhe disse,
acredite em mim, não leio os jornais, e quando leio
passo por alto a política. A política não me interessa.
Vim descendo uma estrada imensa. Estranhei não haver
um carro. Ninguém naquela estrada. Quando cheguei a
Luanda disseram-me que a estrada estava minada, que
há anos não passava ninguém por ali, e quiseram saber
como é que eu conseguira evitar as minas. Encheram-me de perguntas. Respondi-lhes: sobrevivi porque não
sabia que havia minas. Se soubesse não teria consegui-
do. A sorte protege os arganazes. É um provérbio lá da
minha terra. Ou podia ser. Em determinada altura,
numa longa descida, vi que havia soldados agachados
em ambas as margens da estrada. Quando dei por eles
já era demasiado tarde para parar. Não parei. Cumprimentei-os, «bons dias, bons dias», e continuei. Ficaram
ali, de olhos muito abertos, a verem-me passar. Fui
depois de Luanda até Benguela e de Benguela ao
Lubango. A seguir desci a serra e entrei no deserto. Na
primeira noite dei com um acampamento de pastores.
Ofereceram-me leite azedo. Na tarde seguinte parou um jipe à minha frente. Um branco e um preto. Ficaram muito admirados por verem um tipo assim como
eu, meio índio, tão longe de tudo. Também eles me
deram água. Trouxeram-me no jipe até aqui, a esta
cidade do Namibe. Acontece chegar a uma cidade e
achar que é agradável e então deixo-me estar um mês
ou dois, procuro trabalho, engordo, e sempre ganho
algum dinheiro para gastar no caminho. Lavo pratos,
esfrego o chão, e além disso sou um bom cozinheiro.
Quando sinto que me começo a afeiçoar a um lugar
despeço-me e vou-me embora. Quem não ama não
sofre. Quem nada tem, não tem nada a perder. É o que
penso. Um dia adormeci no topo de um enorme despenhadeiro. Acordei com a primeira luz. A manhã pousou-me no ombro, como um pássaro, e ali ficou. Diante
de mim havia o mar. Atrás de mim o céu profundo, altas
montanhas. Era um lugar sem exemplo, arredado do
mundo, como um elefante velho que se perdeu da
manada. Até àquele instante eu viajava sem saber por-
quê. E então, sentado sobre o abismo, ocorreu-me pela
primeira vez essa questão. «O que faço aqui?» Pensei
em voltar para trás. Porém, tinha caminhado de mais, e
já tanto fazia recuar como avançar. Continuei em frente. Hoje viajo para saber porquê. Desaponta-o, talvez,
este final – esperava outro? Se tivesse ficado lá atrás,
nas montanhas do Peru, onde nasci, venderia botões,
como o meu pai. Teria algo a perder, família e dinheiro, por certo sofreria mais. Quanto ao resto não sei se seria, em substância, muito diverso do que sou. Ignoraria certas coisas, sim, o senhor tem razão, mas não me
prejudicaria tal ignorância, pois nem sequer daria por
ela. Talvez um dia eu pare. Talvez não.
José Eduardo Agualusa
Passageiros em trânsito Novos contos para viajar. Obras de José Eduardo Agualusa. 1ª edição Quetzal, 2017. 1ª edição, 2006
11 de octubre de 2025
22 de junio de 2025
Francisco José Tenreiro - «Ritmo para a jóia daquela roça»
RITMO PARA A JÓIA DAQUELA ROÇA
Dona Jóia dona
dona de lindo nome
tem um piano alemão
desafinando de calor.
Dona Jóia dona
do nome de Sum Roberto
está chorando nos seus olhos
de outras terras saudades.
Dona Jóia dona
dona de tudo que é lindo:
do oiro cacaueiro
do café de frutos vermelhos
das brisas da nossa ilha.
Dona Jóia dona
dona de tudo que é triste:
meninos de barriga oca
chupando em peitos chatos;
negros de pezão grande
trabalhando pelos matos.
Ai! Dona Jóia,
dona de mim também –
Jesus, Maria, José
Credo! –
não me olhe assim-sim
que me pára o coração!
Francisco José Tenreiro
Francisco José Tenreiro (São Tomé, São Tomé e Príncipe, 1921 - Lisboa, 1963), foi um geógrafo e poeta são-tomense.
27 de abril de 2025
Eduardo White - «Das palavras»
Eduardo White
6 de febrero de 2025
«No princípio os homens não falavam. Nenhum animal falava...»
De um conto tradicioinal ovimbundo, em Selecção de Contos, Provérbios e Adivinhas em Umbundo, de Jeremias Capitango
Leído em Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa, Quetzal, Lisboa, 2010
11 de enero de 2025
Sérgio Godinho - Namoro
O NAMORO
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse, ela tinha
um sorriso luminoso tão triste e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista
nas acácias floridas, na fímbria do mar.
Sua pele macia era sumaúma
sua pele macia, cheirando a rosas
seus seios laranja, laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou
“por ti sofre o meu coração”
num canto “sim”, noutro canto “não”
e ela o canto do “não” dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do sete
pedindo e rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Sta. Efigénia
me desse a ventura do seu namoro
e ela disse que não.
Mandei à Vó Xica, quimbanda de fama,
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço bem forte e seguro
e dele nascesse um amor como o meu
e o feitiço falhou.
Andei barbado, sujo e descalço
como um monangamba procuraram por mim,
não viu, ai não viu, não viu o Benjamim
e perdido me deram no morro do Samba.
Para me distrair levaram-me ao baile
do Sr. Januário, mas ela lá estava
num canto a rir, contando o meu caso
às moças mais lindas do bairro operário.
Tocaram a rumba e dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu
e a malta gritou: “Aí Benjamim!”.
Olhei-a nos olhos, sorriu para mim
pedi-lhe um beijo, la la la la
e ela disse que sim
e ela disse que sim.
Sérgio Godinho
Letra de Viriato da Cruz, música de Fausto
Viriato Clemente da Cruz (1928 – 1973) fue un poeta y político angoleño.
26 de diciembre de 2024
José Eduardo Agualusa - «Nação Crioula»
A vida de um escravo é uma casa com muitas janelas e nenhuma porta. A vida de um homem livre é uma casa com muitas portas e nenhuma janela.
*****
A eternidade deve ser, de alguma forma, uma espécie de fotografia (um lugar sem tempo) dos momentos bons e maus que nós vivemos. E assim pela eternidad os estaremos vivendo sempre, e o inferno será isso e o paraíso também.
*****
Fradique, aborrecido, perguntou-me o que é que eu sentia tendo sido escrava. O que é que eu lhe podia dizer? Se fosse hoje, ter-lhe-ia respondido com um provérbio crioulo da Serra Leoa, país que visitei recentemente: stone we dei botam wata, no say wen rain de cam, uma pedra debaixo da água não sabe que está a chover.
Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa, Ed. Quetzal, 2017
22 de enero de 2024
«Jorge Barbosa pela mão de António Lobo Antunes»
Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
Não a do tédio
desesperante e doentia,
Não a nostálgica
nem a cismadora.
Esta nossa
fininha melancolia
que vem não sei de onde.
Um pouco talvez
das horas solitárias
passando sobre a ilha
ou da música
do mar defronte
entoando
uma canção rumorosa
musicada com os ecos do mundo.
Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
a que suspende inesperadamente
um riso começado
e deixa um travor de repente
no meio da nossa alegria
dentro do nosso coração,
a que traz à nossa conversa
qualquer palavra triste sem motivo?
Melancolia que não existe quase
porque é um instante apenas
um momento qualquer.
Jorge Barbosa
CRÓNICA DA POMBA BRANCA
O sítio onde moro em Lisboa é uma aldeia. Tem merceariazinhas, lojecas, cabeleireiros pequenos, uma constelação de restaurantezitos, sapateiros, costureiras, capelistas. Não o habitam pessoas ricas, o que se percebe pelos automóveis, pela roupa, pelas caras. Toda a gente se conhece. Há pombos a sujarem os tejadilhos (ainda bem que as vacas não voam) gatos à Stuart Carvalhais e, no que respeita ao meu quarteirão, do algeroz para cima sou o melhor escritor. Ignoro se sabem o que faço, julgo que têm uma ideia vaga. Há quem me trate por senhor doutor e quem me trate por senhor António. Prefiro senhor António: afinal de contas sou um carpinteiro. Aqui ao lado, sempre que saio, um grupo de reformados joga à moeda. Digo – Boa noite meus senhores desbarretam-se – Boa noite senhor doutor e o jogo continua atrás de mim, solene. É à hora alegre e triste em que os candeeiros começam a acender-se e uma fininha melancolia, como escreveu o poeta cabo–verdiano Jorge Barbosa (quem aqui não sentiu esta nossa fininha melancolia) entra devagar em nós, doce, quase agradável, com a lembrança das pessoas de quem gostámos dentro, transparentes, a sorrirem. Caixotes de lixo cambulhando para a rua. Mulheres sentadas na soleira e o senhor António passando por elas com o livro na cabeça e a saudade dos mortos. Há armazéns também, eternamente fechados. Nas janelas iluminadas lustres, ângulos de armário, prateleiras forradas e eu cheio de ternura por aquilo tudo. Nem um pingo de vento nas árvores. O que estarás a fazer? A entrar em casa, a jantar? Daqui a poucos dias desatam a tornar-se pequenos e o cinzento deles a desbotar no meu peito, a fininha melancolia engrossando. Jorge Barbosa Onde pára aquela que morava do outro lado da cidade, acolá no alto, de onde se via o mar? E onde páras tu, senhor António? Metes a chave no buraquinho, entras e a sala enorme, escura. Livros, quadros, retratos. Os cortinados escondem os prédios em frente, o escritório negro, negro. Onde pára aquela que morava do outro lado da cidade, acolá no alto, de onde se via o mar? Fininha melancolia vem e cobre-me. Não me abandones neste momento que preciso de coisas suaves, dedos na minha testa, uma voz que me garanta ter um lugar no mundo. Não derivado aos livros, pelo menino que sou. Que desamparo às vezes: tenho esperança de escondê-lo bem. Sou tão importante eu, sou um grande autor e acabei de nascer. Uma impressão num dente mas a perspectiva da broca – Ora cá temos uma cáriezinha desagrada-me. E os caixotes do lixo cambulhando para a rua. Vivo só. Não me custa. Quer dizer às vezes, à noite, custa, mas faz de conta que não custa. Ando a escrever um livro que não faço a menor ideia quando acabarei: são tão difíceis as palavras e demorei anos a dar conta disso. Ao princípio era canja. Até a gente perceber que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal: então começa a angústia. Um pouco mais tarde percebe-se que há uma diferença, ainda maior, entre escrever bem e obra-prima: então a aflição é completa. De forma que aqui ando eu, de caneta na mão, na minha aldeia no centro da cidade em que acabado o jantar mulheres da vida, travestis. Bares de alterne perto, com uma fila de taxis à espera: tudo isso cheira a miséria rasca. Onde pára aquela que morava no alto da cidade? Num degrau à espera? Nasci de uma mulher e há ocasiões em que me esqueço disso. Devia lembrar-me o tempo inteiro. Onde pára o meu pai que, de certeza, se foi embora do cemitério para a companhia dos seus cachimbos, dos seus livros. Dizia – Bem vês e fazia um silêncio antes de continuar. Bem vejo o quê, pai? Os pais estão entre nós e a morte. Se calhar um homem só se torna homem depois do pai morrer. Homem no sentido mais profundo do termo, qualquer que tenha sido a nossa relação com ele. Depois do enterro do meu avô o meu pai fechou-se no escritório e pôs Bach tão forte que se devia ouvir na Venezuela. Ficou para ali horas a ensurdecer o mundo. Quem aqui não sentiu esta nossa fininha melancolia? Chamo-me António. Ao encontrar-me de manhã para a barba penso – Chamo-me António um nome tão comum, de pobre. Se fosse rico chamava-me Bernardo ou Lourenço ou Gonçalo. Assim, consolo-me com António. Apesar de tudo parece-me menos feio que Hernâni. O que importa? Chamo–me Eu. E o Eu debruçado para o papel nas redacções em que tenho gasto a vida. António porque os meus dois avôs eram Antónios. O que será de mim? Gosto do andar onde moro, não penso mudar-me mais, assenta-me bem nos ombros. António não: senhor António. Olha, se calhar envelheci. Cruzes canhoto: envelheci uma ova. Tenho quinze anos e vou para o treino de hóquei do Benfica. Nos intervalos não estudava e compunha versos, furioso com a sua mediocridade. O mendigo do costume pede-me cigarros: dou-lhe o que estou a fumar. Não fala, murmura, quase não se aguenta nas canetas. Nem sequer cheira mal, isto é ainda tão sujo que está para além dos cheiros. Olhinhos piscos, dedos incertos. Isto junto do templo adventista onde nunca vi ninguém entrar, frente a umas escadinhas que conduzem sei lá onde. Que bonitos os pés das mulheres agora, em Julho, que linda a sua forma de andar. Pouso a caneta, olho as minhas mãos. Estão vazias. Mas tenho a certeza que, se as juntar, ao abri-las sai uma pomba branca. Como os ilusionistas do circo na época em que eu menino. Aí está ela, cheia de arrulhos, a bater as asas em mim.
António Lobo Antunes
Revista Visão (28-8-2008)
7 de noviembre de 2023
Rui Knopfli - «Auto-retrato»
De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga.
De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.
De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracional, lesto na mirada ao seio
entrevisto, à nesga da perna, à fímbria da nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.
De suiço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.
Rui Knopfli
Mangas Verdes com Sal (1969)
30 de agosto de 2023
«Uma lenda ioruba e um provérbio nyaneka»
Quando as águas cobriram a Terra e depois nasceram as florestas, sete grandes pássaros, as nossas mães ancestrais, vieram voando desde o imenso além. Três desses pássaros pousaram na arvore do bem. Três pássaros na árvore do mal. O sétimo ficou voando de uma árvore para a outra.
Lenda ioruba
A luz com que vês os outros é a mesma com que os outros te vêem a ti.
Provérbio nyaneka
Leído en A Rainha Guinga, de José Eduardo Agualusa, Quetzal, 1ª edição junho 2014
29 de julio de 2023
Severino de Souza
«A verdade na História, não é o que foi, mas o que tendo podido ser, parece ter sido.»
Severino de Souza in Breve História dos Povos de Angola
Leído en A Feira dos Assombrados e outras histórias inverossímeis, de José Eduardo Agualusa, Publicações Dom Quixote, 2ª ed., 2001
12 de junio de 2022
«Um conto africano: Passado e Futuro»
PASSADO E FUTURO
Iam dois homens por u
m caminho, caminhando, caminhando, caminhando. No meio do caminho pararam; encontraram outro homem, aquele que consegue extrair o vinho da palmeira.
–Ei, ei! Queremos vinho de palma; dá-nos vinho de palma!
–Eu dou-vos vinho de palma em troca dos vossos nomes.
O primeiro homem deu um passo em frente e disse:
–O meu nome é De Onde Viemos.
O outro homem ficou atrás e disse:
–O meu nome é Para Onde Vamos.
–De Onde Viemos, que belo nome! Quero. Para Onde Vamos é nome errado! A ti não te dou o vinho.
Os homens começaram a discutir e como não conseguiam chegar a um acordo, puseram-se a caminho. Iam três homens por um caminho, caminhando, caminhando, caminhando, caminhando à procura do juiz.
No fim do caminho, encontraram o juiz. Fizeram as suas queixas. O juiz ouviu, pensou e disse:
–Homem, erraste! Para Onde Vamos tem razão. Porque De Onde Viemos já passou, já nada nos pode dar, mas Para Onde Vamos, esse é o lugar onde iremos encontrar tudo aquilo que houver para encontrar.
Recolha de Héli Chatelain em Angola, a Jelemía dia Sabatelu, em finais do século XIX. Versão oral: Ana Sofia Paiva.
17 de enero de 2022
Rui Knopfli - Memoria del agua
MEMORIA DEL AGUA
Gestos y palabras que creí
escritos a fuego
en la dura pared del tiempo.
De pura piedad se los bebió
la memoria del agua
que, no reteniendo nada,
a todo da sepultura.
Rui Knopfli
De su libro Mangas verdes com sal (1969), incluído en Rui Knopfli. Memória consentida. 20 anos de poesia 1959/1979. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Dezembro 1982.
(Traducción de PLC)
MEMÓRIA DA ÁGUA
Gestos e palavras que crera
escritos a fogo
na dura parede do tempo.
De pura piedade os bebeu
a memória da água
que, nada retendo,
a tudo dá sepultura.
Rui Knopfli (Inhambane, África Oriental Portuguesa, 1932 - Lisboa, 1997)







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