Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1
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4 de julio de 2024

Jorge de Sena - «De passarem aves»

 

DE PASSAREM AVES

                               À memória de Sá de Miranda 

Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.

Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.

Jorge de Sena


Pedra Filosofal (1950)



31 de julio de 2022

Sá de Miranda

 

Yo no soy quien m'era antaño:
¡han me como barajado!

Sá de Miranda



En Tempestade de Verão [1950 1953], de David Mourão-Ferreira, incluido en Obra Poética, 1º volume, Bertrand, Lisboa, 1980




15 de mayo de 2022

Sá de Miranda - «O sol é grande, caem co’a calma as aves...»

 

O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
Também mudando-m’eu fiz doutras cores:
E tudo o mais renova, isto é sem cura!


Sá de Miranda
(1481 - 1558)



20 de marzo de 2022

Sá de Miranda - «Desarrezoado amor dentro em meu peito...»

 

Desarrezoado amor dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz e desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

D’outra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?


Sá de Miranda

(Coimbra, 1481 - Amares, 1558)