Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1
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28 de julio de 2026

Alexandre O’Neill - «Pois» + «Pois pois»

 

POIS

O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.



POIS POIS

Sobre o tampo da mesa
Rabo de Cavalo cotovelo-groselha
defronta Patilhas Grisalhas cerveja-cotovelo

Falam de dominguins versus ordoñez
de hemingways na brecha na querela
do assassino mano a mano

Falam a ouro e a sangue no ruedo de mármore

Sob o tampo da mesa
três joelhos conversam roçagantes:
o dele (sarja) entre os dela (nylon).

Rabo de Cavalo está quadrada.
Patilhas Grisalhas então entra a matar.

O sobre e o sob logo se confundem.
Que prometia (olé) o cartaz dele?


Alexandre O’Neill


Entre a Cortina e a Vidraça (1972)







3 de mayo de 2026

Yorgos Seferis y Alexandre O’Neill

 

Πού θα μας φέρουν τέτοιοι δρόμοι;       

Γιώργος Σεφέρης, Τρία κρυφά ποιήματα (1966)


 [¿Dónde nos llevarán estos caminos?]




Sendeiros
que levam a nenhures.

Alexandre O'Neill, Dezanove poemas (1983)




8 de enero de 2025

Alexandre O’Neill - «O melhor pretexto»

 

O MELHOR PRETEXTO

É tão frágil a vida,
tão efémero, tudo!
(Não é verdade, amiga,
olhinhos-cor-de-musgo ?)

E ao mesmo tempo é forte,
forte da veleidade,
de resistir à morte
quanto maior a idade.

Assim, aos trinta e sete,
fechados alguns ciclos,
a vida ainda pede
mais sentimento, vínculos.

Não tanto os que nos deram
a fúria de viver,
como esses descobertos
depois de se saber

Que a vida não é outra
senão a que fazemos
(e a vida é uma só,
pois jamais voltaremos).

Partidários da vida,
melhor: do que está vivo,
digamos "não!" a tudo
que tenha outro sentido.

E que melhor pretexto
(quem o saiba que o diga!)
teremos p'ra viver
senão a própria vida?

Alexandre O’Neill


Poemas com endereço (1962) 
 


18 de diciembre de 2024

Alexandre O’Neill - El amor es el amor

 

EL AMOR ES EL AMOR

El amor es el amor — ¡¿y qué?!
¿Vamos a quedarnos los dos
imaginando, imaginando?...

Mi pecho contra tu pecho,
cortando el mar, cortando el aire.
¡En una cama
hay todo el espacio para amar!

En nuestra carne estamos
sin destino, sin miedo, sin pudor
e intercambiamos — ¿somos uno? ¿somos dos? —
espíritu y calor!

El amor es el amor — ¿y qué?

Alexandre O'Neill



O AMOR É O AMOR

O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois? —
espírito e calor!

O amor é o amor — e depois?


Alexandre O'Neill 


Abandono Vigiado (1960)



(Traducción de PLC)


6 de noviembre de 2024

Alexandre O’Neill

 



«Uma manhã tem uma das habituais (e sempre iguais) trocas de palavras com o pai, o emproado empregado bancário José António Pereira d'Eça Infante de Lacerda O'Neill de Bulhões:

— Alexandre, leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, pai. Não chove.
— Chove. Leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, Pai.
— Já te disse para levares o guarda-chuva.
— Não levo o guarda-chuva e nunca mais cá apareço...

Esteve 16 anos sem ver o pai...»





11 de agosto de 2024

Dos versos de Alexandre O'Neill

 

O tempo e suas varizes no mármore
(entretanto eternidade)


Alexandre O'Neill


«Moldura sem Retrato», in De Ombro na Ombreira (1969)




2 de mayo de 2024

Alexandre O'Neill y su epitafio escrito con 30 años

 

Este es el epitafio que escribió el poeta portugués Alexandre O'Neill (1924 - 1986) a sus 30 años, según confiesa en su última entrevista, con la periodista Clara Ferreira Alves)

-Humor negro: diga um epitáfio que gostasse para si mesmo. Não me diga que nunca fez nenhum, preparado para aquele momento bem português em que morre um artista e lhe caem em cima os vampiros da homenagens, dos amigos, dos depoimentos, das desculpabilizações, dos discursos e dos engrandecimentos. A gloriola – a palavra é sua –, em Portugal é muito póstuma.

-Não gostava nada que me caíssem em cima, nem que dissessem nada sobre mim. Epitáfio… eu até tinha um:

Aqui jaz Alexandre O’Neill
Um Homem que dormiu
muito pouco
Bem merecia isto

Fiz este epitáfio aos 30 anos.



La entrevista puede leerse aquí.  


Fotografia de Alexandre O'Neill por Fernando Lemos (Acervo Instituto Moreira Salles) - A lavagem-cerebral (1949)



8 de enero de 2024

Bocage + Alexandre O’Neill - «Auto-retratos»

 

Manuel María Barbosa du Bocage (1765 - 1805) - Retrato gravado a buril e água-forte por Joaquim Pedro de Sousa



AUTO-RETRATO

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.


Bocage



AUTO-RETRATO

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
   Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
   do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Alexandre O'Neill


Poemas com Endereço
(1962)


 Alexandre O'Neill (1924 - 1986)