Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1
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17 de junio de 2026

«Palavras de Vinicius para Maria Bethânia» (1965)

 

Maria Bethânia, 1966. Arquivo Nacional do Brasil


Maria Bethânia canta como uma jovem árvore que queima numa crepitação de madeira que se extingue para o alto. Tudo é combustão nessa extraordinária cantora cuja voz nos veio da Bahia, para transmitir uma mensagem de amor e poesia como raramente acontece.

Seu canto é livre e puro, mas não de uma pureza casta e desumana: é o encontro do céu com a terra, um casamento do mundo com o infinito. Nela o timbre crestado, com uma qualidade de juta, é um dos componentes mais humanos; mas seu canto se eleva mais alto, lírico, embriagado de espaço, cravejado de estrelas.

Maria Bethânia canta com a liberdade dos pássaros para fora e para cima, mas sem perda dessa intimidade fundamental à comunicação.

A benção Maria Bethânia!


Vinicius de Moraes
3/12/65


Maria Bethânia e Vinícius de Moraes, em 1972. Arquivo Nacional.



6 de julio de 2025

Vinicius de Moraes - «A Anunciação»

 

A ANUNCIAÇÃO

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?

Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...


                   Rio de Janeiro, 1962


Vinicius de Moraes


3 de octubre de 2022

Vinicius de Moraes - «Poética I»

 

POÉTICA I

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes


Nova York, 1950.