Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1
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13 de junio de 2026

13 de junho

 

VII

Ponho na altiva mente o fixo esforço
             Da altura, e à sorte deixo,
             E às suas leis, o verso;
Que, quando é alto e régio o pensamento,
             Súbdita a frase o busca
             E o escravo ritmo o serve.

                       s.d. (1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924)

Ricardo Reis





Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.


                                                     s.d. 

Alberto Caeiro






Subiste à glória pela escada abaixo.
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras;
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te,
Não sei se te invejo a vitória,
Não sei se te invejo o consegui-la,
Mas realmente creio que te a invejo...
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...


                                   30-11-1934

Álvaro de Campos






Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.

No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...

No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura — ou da água.


                                  14-8-1932

Fernando Pessoa




Caricatura de Kleber Sales (2011)




José María Cumbreño - Drama em gente

 

DRAMA EM GENTE

El padre de Fernando Pessoa en realidad no era su padre.

Con su madre hablaba en un idioma extranjero.

Sus hermanos eran hermanos suyos sólo a medias.

La lengua en que aprendió a hablar no era la lengua en que luego escribió .

Escribía en medio de una multitud, pero vivía solo.

Escribía de pie. Escribía de noche.

Su unico amor llevaba el nombre de una heroína suicida.

Se mudó más de veinte veces dentro de la misma ciudad.

Jamás salio de Lisboa. Aunque varias veces llegó al fin del mundo. Y regresó.


José Maria Cumbreño




19 de mayo de 2026

Carlo Gragnani con Pessoa

 

Le lettere d’amore si nutrono di lontananza.

Carlo Gragnani


*


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas,

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).



Fernando Pessoa escribió este poema de Álvaro de Campos el 21 de octubre de 1935, cuarenta días antes de morir en Lisboa.



*CARTA XLI 

Exma. Senhora D. Ophelia Queiroz:

Um abjecto e miseravel individuo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Exª —considerando que o estado mental d’elle o impede de communicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha secca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Exª está prohibida de:

(1) pesar menos grammas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.

Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja communicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.a a pegar na imagem mental, que acaso tenha formada do individuo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossivel dar esse justo Destino á entidade fingidamente humana a quem elle competiria, se houvesse justiça no mundo.

Cumprimenta V. Exª

Álvaro de Campos
eng. Naval


25/9/1929
ABEL


13 de junio de 2025

Pessoa / Ricardo Reis - «Não batas palmas diante da beleza»




Não batas palmas diante da beleza.
Não se sente a beleza demasiado.
           Saibamos como os deuses
           Sentir divinamente.

Ao ver o belo, lembra-te que morre.
E que a tristeza desse pensamento
           Torne elevada e calma
           A tua admiração.

E se é estátua ou de Píndaro alta estrofe
Em quem teus olhos são abandonados
           Não te esqueças de que essa
           Beleza não é viva.

Sempre ao belo uma cousa há-de faltar
Para que seja triste contemplá-lo
           E nunca se poder
           Bater palmas ao vê-lo...

Calma é a beleza. Ama-a calmamente.
Os dons dos deuses como um deus aceita
           E terás tua parte
           Do néctar dado aos calmos.



12-2-1915


Ricardo Reis / Fernando Pessoa



Poesia, de Ricardo Reis. Edição de Manuela Parreira da Silva. Assírio & Alvim, 2ª edição, Junho 2007




17 de enero de 2025

Un aforismo de Julia Otxoa y un poema de Alberto Caeiro

 

Humilde reflexión de vuelo: la sombra del pájaro dibujada en tierra.

Julia Otxoa




XLIII

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!



7-5-1914


Fernando PessoaO Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro



(Fotografia de Stephanie Reis)


9 de enero de 2025

Jordi Doce y Álvaro de Campos

 

Una enseñanza insospechada. Comienzo a saber disfrutar de la satisfacción del deber no cumplido.

Jordi Doce, Perros en la playa (2011)



Fotografía de Bere Beltramino, 2013



Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.


17-6-1929


Álvaro de Campos / Fernando Pessoa






30 de noviembre de 2024

Fernando Pessoa - «Liberdade»

 


LIBERDADE

                                  (Falta uma citação de Séneca)

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa 


21 de octubre de 2024

Fernando Pessoa - «Todas as cartas de amor são...»

 

Fernando Pessoa escribió este poema el 21 de octubre de 1935, cuarenta días antes de  morir en  Lisboa.


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas,

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).


Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa



30 de agosto de 2024

Fernando Pessoa - «Na ribeira deste rio…»

 

Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio.

Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
Numa sequência arrastada,
Do que ficou para trás.

Vou vendo e vou meditando,
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando,
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando.

Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali,
E do seu curso me fio,
Porque, se o vi ou não vi.
Ele passa e eu confio.

2-10-1933


Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).


(No recuerdo si cuando escuché por primera vez la canción de Dori Caymmi conocía ya el poema original de Pessoa, o fue el cantante y compositor brasileño quien me lo dio a conocer; pero desde entonces es difícil leer estos versos sin ponerse a cantar.)




2 de agosto de 2024

Fernando Pessoa - «Sol nulo dos dias vãos…»

 

Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!


Fernando Pessoa


Publicado por primera vez en la revista Athena, nº 3. Lisboa, Dez. 1924.


(Y escuchar este poema como fado a Teresa Silva Carvalho, que en gloria esté)

13 de junio de 2024

Pessoa / Campos - «Nunca, por más que viaje, por más que conozca…»

 

Nunca, por más que viaje, por más que conozca

el salir de un lugar, el llegar a un lugar, conocido o desconocido,

pierdo, al partir, al llegar, y en la línea móvil que los une,

la sensación de escalofrío, el miedo de lo nuevo, la náusea –

Esa náusea que es el sentimiento que sabe que el cuerpo tiene alma,

treinta días de viaje, tres días de viaje, tres horas de viaje –

Siempre la opresión se infiltra en el fondo de mi corazón.

30/11/1929 (Évora)

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa



Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça

O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,

Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,

A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea –

Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma,

Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem –

Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.




18 de septiembre de 2023

Fernando Pessoa cantado por Mísia

 

Como inútil taça cheia
Que ninguém ergue da mesa,
Transborda de dor alheia
Meu coração sem tristeza.

Sonhos de mágoa figura
Só para ter que sentir
E assim não tem a amargura
Que se temeu a fingir.

Ficção num palco sem tábuas
Vestida de papel de seda
Mima uma dança de mágoas
Para que nada suceda.

Fernando Pessoa


Con el título de "Dança de mágoas" es interpretada por Mísia en su álbum Garras dos Sentidos (1998). La música es de Raúl Ferrão.


Fotografía de Gatógrafa




23 de junio de 2023

Pessoa / Caeiro - «Noche de San Juan más allá del muro de mi quintal...»

 

Noche de San Juan más allá del muro de mi quintal.
Del lado de acá, yo sin noche de San Juan. 
Porque hay San Juan donde lo festejan.
Para mí hay una sombra de luz de hogueras en la noche,
un ruido de carcajadas, los golpes en tierra de los saltos 
y un grito ocasional de quien no sabe que yo existo.

Alberto Caeiro


Poesía (Fernando Pessoa) Selección, traducción y notas de José Antonio Llardent. Alianza Tres, Alianza Editorial, 3ª ed. 1985



Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.


12-4-1919



“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 79. 1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.


Muro de quintal. Fotografía de Ponto e vírgula



13 de junio de 2023

Pessoa / Campos - «Começa a haver meia-noite, e a haver sossego…»

 

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino!
—Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dói-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa...



9-8-1934


Álvaro de Campos / Fernando Pessoa




Dos versos de Pessoa

 

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.

23-5-1932


Fernando Pessoa


Fernando Pessoa aos seis anos



«nasceu em 13 de Junho de 1888»

 


Largo de S. Carlos, n.º4, 4º Esquerdo. Lisboa




14 de julio de 2022

Fernando Pessoa - «Eros e Psique»


EROS E PSIQUE

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa



Publicado por primera vez en la revista Presença, núm. 41-42, Coimbra, mayo de 1934.





13 de junio de 2022

Pessoa, por Gilmar Fraga

 



Fernando Pessoa e o soco! ('F.P. y el puñetazo'), una ilustración del brasileño Gilmar Fraga para la columna dominical de David Coimbra en el cuaderno de Deportes (Periódico Zero Hora de Porto Alegre, 19-12-2010). Digital.




Fernando Pessoa / Álvaro de Campos - «Olha, Daisy, quando eu morrer...»

 

III

Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos ai de Londres,
Que embora não o sintas, tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra York, onde nasceste (dizes —
Que eu nada que tu digas acredito...)
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes

(Embora não o saibas) que morri.
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará. Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!...


Fernando Pessoa / Álvaro de Campos

1915

“Três Sonetos” Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 2.

1ª publ. com o título “Soneto Já Antigo” in Contemporânea, nº 6. Lisboa: Dez. 1922.

(Arquivo Pessoa)



Los heterónimos más importantes de Pessoa

 


Fernando Vicente - Diagrama con los heterónimos más importantes de Pessoa, a partir de un análisis de su traductor Perfecto E. Cuadrado.