Hoje eu sei, África rouba-nos o ser, e nos vaza sempre de maneira inversa, enchendo-nos de alma.
Mia Couto
Hoje eu sei, África rouba-nos o ser, e nos vaza sempre de maneira inversa, enchendo-nos de alma.
Mia Couto
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eran cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aquí, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distancia. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. (...)
Mia Couto
Primeiro capítulo. A estrada morta, in Terra Sonâmbula. Caminho, Lisboa, 8ª edição, 2004 (1ª edição, 1992)
Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.
(Crença dos habitantes de Matimati)
O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.
(Fala de Tuahir)
Leído en Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Caminho, Lisboa, 8ª edição, 2004 (1ª edição, 1992)
Dice Curozero Muando, sepulturero (coveiro), personaje del escritor mozambiqueño Mia Couto en Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002):
O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo.
O JANUÁRIO, OU MELHOR: O JANUÁRIO
O seguinte: Januário, o bateleiro, apurava-se na travessia do rio Pungué. Por força de seus braços, homens e coisas passavam para o oposto lado do rio.
O lugar estava cheio de paisagem. A planície toalhava extensos verdes. A estrada de areia se desenrolava cega até se despenhar no rio. Os viajantes, defronte `p corrente, aceitavam a soberania da água sobre os viventes. Na pausa, eles olhavam o fazer de Januário e esperavam seus raros despachos.
Primeirem-se vocês, pessoas. Depois, as cargas.
Não era ordem, mas simples conferir de princípios. Depois, o pau findava no fundo e a jangada de madeira rumava. Os olhos de Januário, oblíquos, buscavam não se sabe que infinito. Houvesse ou não um rio: ele tinha sempre o olhar na outra margem. Como se outra travessia ele empreendesse dentro de seus cursos interiores.
Januário ia e vinha. Os passageiros que vinham da Europa espreitavam aventuras, inebriavam-se de exótico:
Nester rio não há crocodilos?
De Januário os estrangeiros não queriam senão a tradução dos mistérios. Ele, em si, não constava. Fosse porque ele jamais respondeu à pregunta, jamais desvendou segredos do mato. No líquido silencio, ele e o rio fluíam em recíproca viagem.
Só depois de a luz se afogar na savana é que Januário despegava dos serviços náuticos. Ninguém sabia os caminhos por os que regressava, ninguém conhecia onde morava. Dizem que, incertas vezes, lhe viram passando num hipopótamo, perdendo-se nos capinzais.
Improvado cavaleiro em improvável montada, Januário se retirava pelas traseiras do mundo. Os mesmos que falavam o assunto asseguravam que, pela via de igual vivículo, o bateleiro atravessava a madrugada para se achegar ao rio. Dizem.
Foram fluviando os anos, aguacentos. O rio sempre vencendo a paisagem, pois só ele se republicava, gerando-se mesmo depois das secas. Até que, um dia, o progresso se decidiu a construir ali uma ponte de cimento e ferro. Bem junto do local onde labutavam Januário e o batelão. Fizeram um desio na estrada enquanto espetavam ferros na areia e erguiam plataformas de betão.
Januário assitia, impassível, à construção. Várias vezes lhe avisavam:
–Essa ponte será o fim da sua utilidade.
Ele não respondia nem palavra nem gesto. Os outros insistiam:
Você vai ficar desempregado, Januário.
Mas a aflição nele não pegava. Se havia sombra naquele homem, seria a sombra do meio-dia: ninguém podia assinalar.
A ponte, enfim, se fabricou. Mas o trânsito ainda não abrira: a obra já parida carecia de cerimónia de registo. A inauguração se anunciou para o seguinte dia. Mas foi adiada, motivo das chuvadas.
O que se passou, em seguida, ninguém pode comprovar. Foi o rio que inchou, grávido das chuvas? Foi erro de construção, desatenção do ferro? Mas naquelas noites de chuva houve gente que ficou de alma à janela, inquirindo o escuro. Esses juram ter visto uma manada de hipopótamos investindo contra a ponte. E na garupa do primeiro animal: Januário, o próprio expropriado. E assim se explicaria a ponte naufragada.
Do bateleiro não mais se soube. Hoje, dele se lembram apenas os mais velhos, na hora dos poentes. Afinal, quando o mato escurece é só o Sol quem anoitece. O resto mantém-se vivo, de sono bastante desperto.
Mia Couto
Cronicando. Editorial Caminho, 7ª edição, 1991