Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1
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6 de marzo de 2026

Assis Pacheco - «tudo cabe na puizia, que é um bordão dos tímidos.»

 

(...) Esta Nausicaa, inútil explicar, não existiu: somente a imaginação dela, maliciosa, relido Homero entre os perfumes da beladona e das laranjeiras de Pardilhó. Porém tudo cabe na puizia, que é um bordão dos tímidos.

F. A. P.


Na plaquete Nausicaah! (Tiraram-se 300 exemplares fora do mercado. Lisboa, 5.V.84.)


Grande Assis Pacheco! 



3 de noviembre de 2025

Fernando Assis Pacheco - «Um vento leve, uma espuma»

 

UM VENTO LEVE, UMA ESPUMA

Do beijo fica um sabor,
do sabor uma lembrança,
um vento leve, uma espuma.

Do beijo fica um sereno
olhar, o amor de coisas
minúsculas e humildes,
um pássaro que vai e vem
da nossa boca às palavras.
Do beijo fica, suprema,
a descoberta da morte.
Um vento leve, uma espuma
salgada, à flor dos lábios.


Fernando Assis Pacheco








21 de septiembre de 2025

Fernando Assis Pacheco - «Trabalhos e paixões de Benito Prada»

 

Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeitara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.
   O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
   «Caramba », disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, «é à segoviana!»
   «Mas não lhe pões o dente», cortou o outro.
   Entretanto o mais novo, regressado já do Pereiro, aonde fora avisar o Padre Mestre, manifestou desejos de capar Manolo Cabra. O do meio olhou muito sério para o Padeiro Velho. Este cuspiu enojado e decretou:
   «É tudo para os cães. E agora tragam-me lá a roupa do fiel defunto, que já não tem préstimo senão no inferno.»
   Se perguntassem ao Padeiro Velho o que mais queria naquele momento, teria respondido:
   «Assar-lhe até a memória.»


Fernando Assis Pacheco


Primer capítulo de la novela Trabalhos e paixões de Benito Prada (1993)


2 de agosto de 2025

«Sei fazer versos mas doem.»

 

Un verso de un poema de Fernando Assis Pacheco, “O garrote”, dedicado a su madre, en el libro Catalabanza, Quilolo e Volta (1972)

Sei fazer versos mas doem.



6 de julio de 2025

Dos versos de Fernando Assis Pacheco

 

Fernando Assis Pacheco. De su poema “Monsenhor, passeando de bicicleta”, en Respiração Assistida (2003), estos dos versos:


ó lameiro do coração
como endureces!




17 de abril de 2025

Unos versos de Fernando Assis Pacheco

 

El poema Páscoa, de Fernando Assis Pacheco, empieza así:  


A senhora tia alisa a toalha
põe sobre ela talheres muito antigos
herdados dos avós que a terra come





30 de noviembre de 2024

Fernando Assis Pacheco - Pranto por Manuel Doallo

 

PRANTO POR MANUEL DOALLO

Podia-se ter esborrachado qualquer 23 de Agosto
véspera do San Bartolomé e ele na moto
correndo de Vitoria para as mozas de Ourense
e para as tazas em que era ainda mais exímio

e deixa-se morrer unha serán poñamos
por caso desolada agora pai de filhos
a última queixa: que lhe doía um braço
em troques há tanto sacana que parece de ferro

vaite ó carallo ó morte que me levas
o meu primo galego Manuel Doallo
morte merdeira
coisa ruim de cinza e névoa e cinza

nem nunca nestas terras se me eu lembro
houve um outro rapaz de tanto garbo
como il que era cáseque um rei e querem
que eu o chore e ao coração coitelo?

barqueira que mo levas puta infame
eu berro e berro à soedá do rio


Fernando Assis Pacheco


A Profissão Dominante (1982), in A Musa Irregular, Edições Asa, 1996; Assírio & Alvim, 2006





17 de marzo de 2022

Fernando Assis Pacheco - Soneto para los hijos

 

SONETO A LOS HIJOS

Toda la epopeya de la família cabe aquí
un abuelo gallego llegado a Portugal de chico
otro de al lado de Aveiro que se embarcó
para San Tomé a cultivar cacao

de hijos suyos nací
con este poco de inútil fantasía
nutrida en soledades en las que me veo
desnudo como un lechoncito en la pocilga

y como él indefenso y sin embargo quise
aun así ser más que el animal
en el tuétano de los huesos presentido

no pido nada usad mi nombre
si os place recordadme
lo que sea costumbre

pero libraos del lujo y de la soberbia


Fernando Assis Pacheco


Traducido por PLC de su libro A Musa Irregular, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.



SONETO AOS FILHOS

Toda a epopeia da família cabe aqui
um avô galego chegado a Portugal rapazinho
outro de ao pé de Aveiro que se meteu
num barco para S. Tomé a fazer cacau

de filhos seus nasci
com este pouco de inútil fantasia
nutrida em solidões nas que me vejo
nu como um bacorinho na pocilga

e como ele indefeso e porém quis
mesmo assim ser mais que o animal
no tutano dos ossos pressentido

não peço nada usai o meu nome
se vos praz lembrai-me
o que for costume

mas livrai-vos do luxo e da soberba



1 de febrero de 2022

Fernando Assis Pacheco - Versos para una amiga finlandesa

 

VERSOS PARA UNA AMIGA FINLANDESA

Anna Lüsa Uski mi dama de antaño
qué habrá sido del garbo que tenías
¿sigues igual de bella que en la fotografía?
yo cuando pienso en ti aún conservo

dentro del pobre corazón torcaz
aquel bicho royendo despacito
tú eras sólo pen pal pero qué más da
no se tiene más sed de un cantarillo

no te perdono que por allí te quedaras
casada con cualquiera en Likkolampi
¿cómo pudiste Anna ser tan mala?
yours sincerely ya te llamaba mujer

más tarde hice yo catorce años
ardía como un leño en mi pecho el amor
¿sabéis una cosa críticos fulanos?
aún me escalofría esta dama de antaño

Fernando Assis Pacheco


(Traducción de PLC)


VERSINHOS A UMA AMIGA FINLANDESA

Ó Anna Lüsa Uski minha dama de antanho
o que é feito da tua bizarria
continuas bela como na fotografia?
eu quando penso em ti ainda tenho

dentro do pobre coração torcaz
aquele bicho a roer devagarinho
tu eras só pen pal mas tanto faz
mais sede não se tem de um pucarinho

não te perdoo que ficasses por lá
em Likkolampi casando com um qualquer
como pudeste ó Anna ser tão má?
yours sincerely já te chamava mulher

mais tarde eu fiz catorze anos
o amor era no meu peito como um lenho
quereis saber críticos vós fulanos?
inda me arrepia esta dama de antanho



A Musa Irrregular, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.



28 de diciembre de 2021

Fernando Assis Pacheco - Sum Paxé

 

SUM PAXÉ
apuntes del nieto

Dicen que yo venía de la plantación
dos sábados al mes
con traje blanco y sombrero de paja
a fornicar en la ciudad

teniendo antes cuidado
de encomendarme a la suerte
y desatar el caballo

endemoniado como yo

*

en la bahía las mañanas
bordadas en oro

*

mi historia se cuenta
en pocas palabras
la bajada del cacao
en Londres el moho
en las hojas de palma
y otro
barco más
y otro
sin llegar correo de casa

*

allá por 1940
si yo a durar tanto llego
quiero volver a Lisboa
ver a los hijos con título 
y algún hijo suyo
meándose ya en mi regazo

¡pido tan poco
a los dioses lares!

fui um hombre impetuoso
y con la edad
lamentablemente deje de serlo

vecinas más zorras
dicen ahora entre ellas
es castigo del señor

pero Él como sabéis
peca poco y mal

Fernando Assis Pacheco
(1937 - 1995)


De su libro póstumo Respiração assistida. Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

(Versión de PLC)


SUM PAXÊ

apontamentos do neto

Contam que eu vinha da roça
dois sábados por mês
de fato branco e chapéu palhinhas
fornicar na cidade

tendo o previo cuidado
de encomendar-me à sorte
e desamarrar o cavalo

como eu possesso

*

na baía as manhãs
bordadas a oiro

*

a minha história conta-se
em poucas palavras
a baixa do cacau
em Londres a ferrugem
nas folhas de palma
e outro
barco ainda
e outro
sem vir correio de casa

*

lá mais para 1940
se su durar tanto como isso
quero voltar a Lisboa
ver os filhos formados
e deles algum filho já
mijando no meu colo

peço tão pouco
aos deus es lares!

*

fui um homem de tesão
que com a idade
lamentavelmente vim a perder

vizinhas mais cabras
dizem agora entre elas
é castigo do Senhor

mas Ele como sabeis
peca pouco e mal



Lisboa VII-91, 22-I-92, 27-XI-95