Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1
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24 de abril de 2026

Ruy Belo - La medida de españa

 

La medida de españa

He cambiado de ciudad algunas veces 
y mi pasado es todo olvido
La noche llega precedida por la sombra
y siempre que repudio la noche es en vano
Cualquier día me muero y poco sé de la vida
Es peligrosa la vida la simple vida
la vida la simple vida es violenta
Pero cuando la primavera en cabello llega
me siento invulnerable y empiezo 
Es formidable marzo cuando se acerca
prometiendo en sus pasos un verano completo 
Soy todo de este tiempo y son míos estos días
Yo nada soy pero el verano existe
Canta corazón mío 
Esta es la medida de españa
oh vida vida mía extraña

Ruy Belo



A medida de espanha

Tenho mudado de cidade algumas vezes
e o meu passado é todo esquecimento
A noite chega precedida pela sombra
e é sempre em vão que repudio a noite
Eu morro qualquer dia e pouco sei da vida
É perigosa a vida a simples vida
a vida a simples vida é violenta
Mas quando a primavera em cabelo chega
sinto-me invulnerável e começo
É formidável março quando se aproxima
a prometer no passo um integral verão
Sou todo deste tempo e são meus estes dias
Eu nada sou mas o verão existe
Canta meu coração
Esta é a medida de espanha
ó vida minha vida estranha


Ruy Belo


De su libro Homem de Palavra(s), 1970 



Y esa “primavera em cabelo recuerda un poemilla de la lírica tradicional castellana al que puso música Juan Vázquez  (ca. 1500, Badajoz - 1563, Sevilla), que dice:


Vos me matastes,
niña en cabello,
vos me habéis muerto.

Ribera de un río
vi moza virgo.
Niña en cabello,
vos me habéis muerto.



(Traducción de PLC) 


3 de abril de 2026

Ruy Belo - «Meditação anciã»


MEDITAÇÃO ANCIÃ

Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus

Ruy Belo


Toda a Terra (1976)


12 de marzo de 2026

Ruy Belo - «As grandes insubmissões»

 

AS GRANDES INSUBMISSÕES

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
E o maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.


Ruy Belo


Homem de Palavras[s] (1969)



31 de agosto de 2025

Ruy Belo - «A autêntica estação»

 

A AUTÊNTICA ESTAÇÃO

É Verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os olhos
e me leva a sentir as saudades do inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação.


Ruy Belo


Homem de palavra[s], 1970




31 de enero de 2025

Joaquim Manuel Magalhães, sobre la poesía de Ruy Belo

 

O acaso lança, muitas vezes, na leitura da poesia, harmonia de sentido por caminhos arbitrários e possui capacidade de recelação que é loucura não seguir.

(…)   

O melhor entendimento da poesia é sempre fragmentário e em abismo.


Joaquim Manuel Magalhães, en el posfacio al primer volumen de su edición de la Obra poética de Ruy Belo, Editorial Presença, 1984




6 de diciembre de 2024

Unos versos de Ruy Belo

 

Quando as raparigas punham todo o peso da sua esmagadora juventude
no pé e o pé no pó das antigas estradas a caminho das fontes
onde a água corria pelos vagarosos dias desse tempo


Ruy Belo, A Margem da Alegria (1974)




10 de mayo de 2024

El padre Vieira y Ruy Belo

 

El título del libro Toda a Terra (1976), del poeta portugués Ruy Belo, se debe al padre António Vieira, que Belo cita así:

Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer o mundo.


Unas cuantas palabras más de lo que escribió Vieira:

Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer o mundo.

Sermão de Santo António, Roma, na Igreja de Santo António dos Portugueses, 1670, § IV



António Vieira (Lisboa, 1608 - Bahía, 1697), religioso, filósofo, escritor y orador português de la Compañía de Jesús.




26 de marzo de 2024

Ruy Belo y Ouka Lele

 


Cuando leí un poemita de la fotógrafa Ouka Lele, de quien ignoraba que escribiese poesía, me vino a la memoria un maravilloso verso de Ruy Belo (1933 - 1978), de un largo poema suyo “Encontro de Garcilaso de la Vega com Dona Isabel Freire, em Granada, no ano de 1526” (Toda a Terra, 1976)

Eu sabia que a via e ao vê-la a perdia.





MINUTOS

Y fue un instante,
de amor,
pero fue.

Bárbara Allende, Ouka Lele (1957 - 2022)





11 de agosto de 2023

Dos versos de Ruy Belo

 

Del poema de Ruy Belo, «Mudando de assunto», perteneciente al libro Homem de Palavra [s], de 1970:


Não perguntem quem sou
neste momento em que recordo e escrevo.





28 de junio de 2022

Unos versos de Ruy Belo

 

Recuerdo estos tres versos del poeta portugués Ruy Belo dichos por un locutor de la emisora TSF. Pertenecen a un largo poema, «Aquele grande rio eufrates», que da título a su primer libro, publicado en 1961. Versos tan adecuados para comenzar una primavera que ya queda lejos...  



Aqui estamos nós homens sujeitos ao tempo
Que lindos corpos temos com que graça
os libertamos do inverno e vamos por aí




Aquí estamos nosotros hombres sujetos al tiempo
Qué lindos cuerpos tenemos con qué gracia
los liberamos del invierno y vamos por ahí



7 de mayo de 2022

Ruy Belo - Y todo era posible

 

Y ERA TODO POSIBLE

Allá en mi juventud antes de haber salido
de casa de mis padres dispuesto a viajar
ya conocía yo el estruendo del mar
de páginas y páginas que ya había leído

Llegaba el mes de mayo con todo florecido
el rodillo del alba se ponía a girar
sólo había que oír al soñador hablar
de la vida tal si ésta hubiese ocurrido

Todo pasaba lejos en otra vida
y tenían las cosas siempre una salida
¿Cuándo fue? Ni yo mismo sabría contarlo

Era mío el poder que se tiene en la infancia
no existía entre yo y las cosas distancia
y era todo posible con sólo desearlo

Ruy Belo


(Traducción de PLC) 



E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio o não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.



Homem de Palavra(s), 1970




23 de julio de 2021

Ruy Belo - La misión de las hojas

 

LA MISIÓN DE LAS HOJAS

Aquella tarde rota
contra mi oído atento
yo supe que la misión de las hojas
es definir el viento

Ruy Belo



A MISSÃO DAS FOLHAS

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento



Aquele Grande Rio Eufrates (1961), in Obra Poética de Ruy Belo - Vol. 1. Organização e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães. Editorial Presença, 2ª ed., 1984.