Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1
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31 de octubre de 2025

Carlos Drummond de Andrade - «Infância»



INFÂNCIA

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
cafe gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


Carlos Drummond de Andrade





O próprio Drummond diz o seu poema 

Dia D, de Drummond

 



Kleber Sales - Dia D, 2011




9 de mayo de 2025

Carlos Drummond de Andrade - «Procura da poesia»

 

PROCURA DA POESIA

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Carlos Drummond de Andrade


A Rosa do Povo (1945)




6 de abril de 2025

Carlos Drummond de Andrade - «Necrológio dos desiludidos do amor»




Participação da atriz Fernanda Torres no vídeo do Instituto Moreira Salles em homenagem a Carlos Drummond de Andrade.



NECROLÓGIO DOS DESILUDIDOS DO AMOR

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.



Carlos Drummond de Andrade




Brejo das almas, Belo Horizonte, 1934.



6 de enero de 2025

Ilhan Berk y Carlos Drummond de Andrade

 

Lo difícil es vivir la vida del poema. Escribir viene luego.

Ilhan Berk


Vive con tus poemas antes de escribirlos.

Carlos Drummond de Andrade


Poesia ¿eres tú? (Aproximaciones a la poesía, el poema y el poeta) Recopilación de Fermín Herrero y Jesus Munarriz, Ediciones Hiperión, 2018

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Ilhan Berk (1908 - 2008), poeta turco, y Carlos Drummond de Andrade   (1902 - 1987) 


El verso original de Drummond, que proviene de un poema titulado «Procura da poesia», pertenece al libro A rosa do povo (1945)

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. 


31 de octubre de 2023

Carlos Drummond de Andrade - Aurora

 

AURORA

O poeta ia bêbedo no bonde.
O dia nascia atrás dos quintais.
As pensões alegres dormiam tristíssimas.
As casas também iam bêbedas.

Tudo era irreparável.
Ninguém sabia que o mundo ia acabar
(apenas uma criança percebeu mas ficou calada),
que o mundo ia acabar às 7 e 45.
Últimos pensamentos! últimos telegramas!
José, que colocava pronomes,
Helena, que amava os homens,
Sebastião, que se arruinava,
Artur, que não dizia nada,
embarcam para a eternidade.

O poeta está bêbedo, mas
escuta um apelo na aurora:
Vamos todos dançar
entre o bonde e a árvore?

Entre o bonde e a árvore
dançai, meus irmãos!
Embora sem música
dançai, meus irmãos!
Os filhos estão nascendo
com tamanha espontaneidade.
Como é maravilhoso o amor
(o amor e outros produtos).
Dançai, meus irmãos!
A morte virá depois
como um sacramento.


Carlos Drummond de Andrade


Brejo das almas (1934)


AURORA 

El poeta iba borracho en el tranvía.
El día empezaba detrás de los patios.
Las pensiones alegres dormían tristísimas.
Las casas también iban borrachas.

Todo era irreparable.
Nadie sabía que el mundo iba a acabarse
(sólo un niño se dio cuenta, pero se calló),
que el mundo iba a acabarse a las 7:45.
¡Últimos pensamientos! ¡Últimos telegramas!
José, que colocaba pronombres,
Helena, que amaba a los hombres,
Sebastián, que se arruinaba,
Arturo, que no decía nada,
embarcan hacia la eternidad.

El poeta está borracho, pero
escucha una llamada en la aurora:
¿Vamos a bailar todos
entre el tranvía y el árbol?

¡Entre el tranvía y el árbol 
bailad, hermanos míos!
¡Aunque sea sin música,
bailad, hermanos míos!
Los hijos nacen
con tanta espontaneidad.
Qué maravilloso es el amor
(el amor y otros productos).
¡Bailad, hermanos míos!
La muerte vendrá después 
como un sacramento.

(Traducción de PLC)


31 de octubre de 2022

«A pedra de Drummond»



El poema de Carlos Drummond de Andrade, «No meio do caminho», leído, además de en portugués, en las siguientes lenguas: inglés, hebreo, danés, francés, holandés, italiano, húngaro, alemán, latín, español y tupí. Carlos Drummond de Andrade nació el 31 de octubre de 1902 en la ciudad de Itabira, en el estado brasileño de Minas Gerais. Falleció en Río de Janeiro en 1987. Hace años que en tal día como hoy se celebra el Dia D en Brasil, homenaje a su gran poeta.


NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


Carlos Drummond de Andrade, Revista de Antropofagia (1928)


«O poema, publicado posteriormente no livro "Alguma Poesia" (1930), causou um verdadeiro escândalo na imprensa da época, provocando ataques ferrenhos ao autor por críticos que se negavam sequer a considerar poesia aquele texto ousadamente estruturado na repetição e numa construção lingüística simples, coloquial, que afirma a fala popular “tinha uma pedra” em detrimento da forma culta “havia uma pedra”.

Depois dos vários ataques da crítica, o próprio Drummond afirma “sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais". Apesar de Drummond nunca ter esclarecido quais seriam essas “duas categorias mentais”, fica claro o impacto do poema diante da opinião pública da época, que sentiu-se obrigada a parar diante daquela pedra no meio do caminho e expressar seu posicionamento com relação a ela - ou entusiasticamente favorável, como se mantiveram os modernistas e simpatizantes, ou radicalmente contra, como a maioria da crítica literária conservadora da época. Aliás, até hoje, a pedra drummondiana permanece impassível e desafiadora, na sua mudez de minério, a fomentar questões, estudos e paixões nos caminhos dos admiradores e estudiosos da obra do poeta.
»

Andrea Barros, em Carlos Drummond de Andrade: modernismo e a pedra no caminho







21 de febrero de 2022

Dos versos de Carlos Drummond de Andrade

 

Los dos primeros versos de un largo poema del poeta brasileño Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), titulado «Idade madura», incluido en su libro A Rosa do Povo (1945):


As lições da infância
desaprendidas na idade madura.




31 de octubre de 2021

Carlos Drummond de Andrade - Recuerdo del mundo antiguo

 

LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO

Clara paseaba en el jardín con los niños.
El cielo era verde sobre la grama,
el agua era dorada bajo los puentes,
otros elementos eran azules, rosados, anaranjados,
el guarda municipal sonreía, pasaban bicicletas,
la niña pisó el césped para coger un pájaro,
el mundo entero, Alemania, China, todo estaba
tranquilo alrededor de Clara.

Los niños miraban el cielo: no estaba prohibido.
La boca, la nariz, los ojos estabam abiertos. No había peligro.
Los peligros que Clara temía eran la gripe, el calor, los insectos.
Clara tenía miedo de perder tranvía de las 11,
esperaba cartas que tardaben en llegar,
no siempre podía ponerse un vestido nuevo. ¡Pero paseaba
en el jardín, por la mañana!
¡Había jardines, había mañanas en aquel entonces!

Carlos Drummond de Andrade


Sentimento do Mundo, 1940



(Traducción de PLC)


LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era
tranquilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava
no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!