O CICLISTA
O passado é como o mar: nunca sossega. As casas en-
colhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem
sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos
anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores
gigantescas e sufocando de terror à sombra delas as
casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reco-
nhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças, ou o quintal, que sempre julgá-
mos ser imenso, e que tem, afinal, apenas dois palmos
de fundo.
O meu pai dizia-me: «A vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para
trás enquanto corre arrisca-se a tropeçar.»
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos
fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente
caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e
jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos
livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam
para onde vou encolho os ombros. Rio-me: «Adiante.»
O mundo é infinito para quem viaja a pé. Eu viajo a
pé, à boleia de algum camião, ou de bicicleta. Andando
de camião, ou de bicicleta, o mundo parece um pouquinho menor, mas ainda assim, digo-lhe, meu bom
amigo, é uma imensidão. Não tenho muitos estudos.
Aprendi a ler e a contar, pouco mais. Raramente leio o
que quer que seja. Quando encontro algum jornal
lanço uma vista de olhos à página da necrologia. Como
não conheço ninguém, como ninguém espera por mim
em parte alguma, choro pelos desconhecidos, aqueles
que me parecem mais simpáticos, vou pelo semblante,
entende?, isto se a fotografia do defunto estiver bem
impressa, ou então pelo nome. Há sempre algum José
por quem chorar. Não choro de pena. Choro apenas
para praticar. Enquanto viajo conto os quilómetros
para eludir o tédio. Desconheço o que me espera quando cruzo uma fronteira. Impus a mim mesmo uma condição: não passar duas vezes pela mesma estrada.
Cheguei há uma semana do Huambo. O senhor conhece?... Nasceu lá?! Extraordinária coincidência, sim,
extraordinária coincidência, é que eu também nasci
numa cidade chamada Huambo, mas muito longe
deste país, nas montanhas do Peru. Tinha uma leprosaria que o Che Guevara visitou. Não há lugares repetidos. Só os nomes se repetem. Quer saber como faço
para sobreviver? Estou atento. Há poucos dias um camponês disse-me apontando em redor: «Tudo o que não é mato engorda.»
Concordo. Veja bem: as mangas. Durante um mês,
enquanto atravessei o Congo, comi apenas mangas.
Só o perfume das mangas, se forem doces, já alimenta.
Isso, ou um canavial a arder. Goiabas maduras. Também
se pode sobreviver muito tempo comendo unicamente
milho ou feijão. Um homem em andamento não morre
de fome. Entrei em Angola, pedalando esta bicicleta.
Não sabia que o país estava em guerra. É como lhe disse,
acredite em mim, não leio os jornais, e quando leio
passo por alto a política. A política não me interessa.
Vim descendo uma estrada imensa. Estranhei não haver
um carro. Ninguém naquela estrada. Quando cheguei a
Luanda disseram-me que a estrada estava minada, que
há anos não passava ninguém por ali, e quiseram saber
como é que eu conseguira evitar as minas. Encheram-me de perguntas. Respondi-lhes: sobrevivi porque não
sabia que havia minas. Se soubesse não teria consegui-
do. A sorte protege os arganazes. É um provérbio lá da
minha terra. Ou podia ser. Em determinada altura,
numa longa descida, vi que havia soldados agachados
em ambas as margens da estrada. Quando dei por eles
já era demasiado tarde para parar. Não parei. Cumprimentei-os, «bons dias, bons dias», e continuei. Ficaram
ali, de olhos muito abertos, a verem-me passar. Fui
depois de Luanda até Benguela e de Benguela ao
Lubango. A seguir desci a serra e entrei no deserto. Na
primeira noite dei com um acampamento de pastores.
Ofereceram-me leite azedo. Na tarde seguinte parou um jipe à minha frente. Um branco e um preto. Ficaram muito admirados por verem um tipo assim como
eu, meio índio, tão longe de tudo. Também eles me
deram água. Trouxeram-me no jipe até aqui, a esta
cidade do Namibe. Acontece chegar a uma cidade e
achar que é agradável e então deixo-me estar um mês
ou dois, procuro trabalho, engordo, e sempre ganho
algum dinheiro para gastar no caminho. Lavo pratos,
esfrego o chão, e além disso sou um bom cozinheiro.
Quando sinto que me começo a afeiçoar a um lugar
despeço-me e vou-me embora. Quem não ama não
sofre. Quem nada tem, não tem nada a perder. É o que
penso. Um dia adormeci no topo de um enorme despenhadeiro. Acordei com a primeira luz. A manhã pousou-me no ombro, como um pássaro, e ali ficou. Diante
de mim havia o mar. Atrás de mim o céu profundo, altas
montanhas. Era um lugar sem exemplo, arredado do
mundo, como um elefante velho que se perdeu da
manada. Até àquele instante eu viajava sem saber por-
quê. E então, sentado sobre o abismo, ocorreu-me pela
primeira vez essa questão. «O que faço aqui?» Pensei
em voltar para trás. Porém, tinha caminhado de mais, e
já tanto fazia recuar como avançar. Continuei em frente. Hoje viajo para saber porquê. Desaponta-o, talvez,
este final – esperava outro? Se tivesse ficado lá atrás,
nas montanhas do Peru, onde nasci, venderia botões,
como o meu pai. Teria algo a perder, família e dinheiro, por certo sofreria mais. Quanto ao resto não sei se seria, em substância, muito diverso do que sou. Ignoraria certas coisas, sim, o senhor tem razão, mas não me
prejudicaria tal ignorância, pois nem sequer daria por
ela. Talvez um dia eu pare. Talvez não.
José Eduardo Agualusa
Passageiros em trânsito Novos contos para viajar. Obras de José Eduardo Agualusa. 1ª edição Quetzal, 2017. 1ª edição, 2006
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