Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1

14 de octubre de 2025

José Eduardo Agualusa - «O ciclista»

 

O CICLISTA

O passado é como o mar: nunca sossega. As casas en- colhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores gigantescas e sufocando de terror à sombra delas as casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reco- nhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças, ou o quintal, que sempre julgá- mos ser imenso, e que tem, afinal, apenas dois palmos de fundo.

O meu pai dizia-me: «A vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre arrisca-se a tropeçar.»

Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me: «Adiante.»

O mundo é infinito para quem viaja a pé. Eu viajo a pé, à boleia de algum camião, ou de bicicleta. Andando de camião, ou de bicicleta, o mundo parece um pouquinho menor, mas ainda assim, digo-lhe, meu bom amigo, é uma imensidão. Não tenho muitos estudos. Aprendi a ler e a contar, pouco mais. Raramente leio o que quer que seja. Quando encontro algum jornal lanço uma vista de olhos à página da necrologia. Como não conheço ninguém, como ninguém espera por mim em parte alguma, choro pelos desconhecidos, aqueles que me parecem mais simpáticos, vou pelo semblante, entende?, isto se a fotografia do defunto estiver bem impressa, ou então pelo nome. Há sempre algum José por quem chorar. Não choro de pena. Choro apenas para praticar. Enquanto viajo conto os quilómetros para eludir o tédio. Desconheço o que me espera quando cruzo uma fronteira. Impus a mim mesmo uma condição: não passar duas vezes pela mesma estrada. Cheguei há uma semana do Huambo. O senhor conhece?... Nasceu lá?! Extraordinária coincidência, sim, extraordinária coincidência, é que eu também nasci numa cidade chamada Huambo, mas muito longe deste país, nas montanhas do Peru. Tinha uma leprosaria que o Che Guevara visitou. Não há lugares repetidos. Só os nomes se repetem. Quer saber como faço para sobreviver? Estou atento. Há poucos dias um camponês disse-me apontando em redor: «Tudo o que não é mato engorda.»

Concordo. Veja bem: as mangas. Durante um mês, enquanto atravessei o Congo, comi apenas mangas. Só o perfume das mangas, se forem doces, já alimenta. Isso, ou um canavial a arder. Goiabas maduras. Também se pode sobreviver muito tempo comendo unicamente milho ou feijão. Um homem em andamento não morre de fome. Entrei em Angola, pedalando esta bicicleta. Não sabia que o país estava em guerra. É como lhe disse, acredite em mim, não leio os jornais, e quando leio passo por alto a política. A política não me interessa. Vim descendo uma estrada imensa. Estranhei não haver um carro. Ninguém naquela estrada. Quando cheguei a Luanda disseram-me que a estrada estava minada, que há anos não passava ninguém por ali, e quiseram saber como é que eu conseguira evitar as minas. Encheram-me de perguntas. Respondi-lhes: sobrevivi porque não sabia que havia minas. Se soubesse não teria consegui- do. A sorte protege os arganazes. É um provérbio lá da minha terra. Ou podia ser. Em determinada altura, numa longa descida, vi que havia soldados agachados em ambas as margens da estrada. Quando dei por eles já era demasiado tarde para parar. Não parei. Cumprimentei-os, «bons dias, bons dias», e continuei. Ficaram ali, de olhos muito abertos, a verem-me passar. Fui depois de Luanda até Benguela e de Benguela ao Lubango. A seguir desci a serra e entrei no deserto. Na primeira noite dei com um acampamento de pastores. Ofereceram-me leite azedo. Na tarde seguinte parou um jipe à minha frente. Um branco e um preto. Ficaram muito admirados por verem um tipo assim como eu, meio índio, tão longe de tudo. Também eles me deram água. Trouxeram-me no jipe até aqui, a esta cidade do Namibe. Acontece chegar a uma cidade e achar que é agradável e então deixo-me estar um mês ou dois, procuro trabalho, engordo, e sempre ganho algum dinheiro para gastar no caminho. Lavo pratos, esfrego o chão, e além disso sou um bom cozinheiro. Quando sinto que me começo a afeiçoar a um lugar despeço-me e vou-me embora. Quem não ama não sofre. Quem nada tem, não tem nada a perder. É o que penso. Um dia adormeci no topo de um enorme despenhadeiro. Acordei com a primeira luz. A manhã pousou-me no ombro, como um pássaro, e ali ficou. Diante de mim havia o mar. Atrás de mim o céu profundo, altas montanhas. Era um lugar sem exemplo, arredado do mundo, como um elefante velho que se perdeu da manada. Até àquele instante eu viajava sem saber por- quê. E então, sentado sobre o abismo, ocorreu-me pela primeira vez essa questão. «O que faço aqui?» Pensei em voltar para trás. Porém, tinha caminhado de mais, e já tanto fazia recuar como avançar. Continuei em frente. Hoje viajo para saber porquê. Desaponta-o, talvez, este final – esperava outro? Se tivesse ficado lá atrás, nas montanhas do Peru, onde nasci, venderia botões, como o meu pai. Teria algo a perder, família e dinheiro, por certo sofreria mais. Quanto ao resto não sei se seria, em substância, muito diverso do que sou. Ignoraria certas coisas, sim, o senhor tem razão, mas não me prejudicaria tal ignorância, pois nem sequer daria por ela. Talvez um dia eu pare. Talvez não
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José Eduardo Agualusa


Passageiros em trânsito  Novos contos para viajar. Obras de José Eduardo Agualusa. 1ª edição Quetzal, 2017. 1ª edição, 2006


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