Fotografía de Herr_Mueller - The Good Life #1

15 de abril de 2026

Greer Garson, por Clarence Sinclair Bull

 



 Greer Garson (Londres, 1904 - Dallas, 1996), retratada por Clarence Sinclair Bull en 1941.



Mia Couto - «Terra Sonâmbula»

 

    Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eran cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aquí, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
    A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distancia. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
   Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo.
(...)

 Mia Couto


Primeiro capítulo. A estrada morta, in Terra Sonâmbula. Caminho, Lisboa, 8ª edição, 2004 (1ª edição, 1992)



De bicicleta pelo cafundó, Mocambique em marco de 2006

Foi um dia chuvoso. As nuvens escureceram a paisagem vigorosamente verde.

Esta é a estrada nacional que liga as cidades Cuamba e Nampula. Sem esta dica pode-se achar que é algum caminho que dá para os campos dos habitantes das aldeias adjacentes.


(Fotografía y texto de Mandreas Artin / Andreas Martin)



Una fotografía de Charles Sheeler

 



Charles Sheeler (1883 - 1965) - Dan Mask, 1918



14 de abril de 2026

Miguel Hernández - Para la libertad

 

PARA LA LIBERTAD

Para la libertad sangro, lucho, pervivo.
Para la libertad, mis ojos y mis manos,
como un árbol carnal, generoso y cautivo,
doy a los cirujanos.

Para la libertad siento más corazones
que arenas en mi pecho: dan espumas mis venas,
y entro en los hospitales, y entro en los algodones
como en las azucenas.

Para la libertad me desprendo a balazos
de los que han revolcado su estatua por el lodo.
Y me desprendo a golpes de mis pies, de mis brazos,
de mi casa, de todo.

Porque donde unas cuencas vacías amanezcan,
ella pondrá dos piedras de futura mirada
y hará que nuevos brazos y nuevas piernas crezcan
en la carne talada.

Retoñarán aladas de savia sin otoño
reliquias de mi cuerpo que pierdo en cada herida.
Porque soy como el árbol talado, que retoño:
porque aún tengo la vida.

Miguel Hernández,


El hombre acecha (1938-39)





Luis Dubón - República Española, 14 de abril de 1931

 



Luis Dubón Portalés  (Valencia, 1892 - 1953) - República Española, 14 de abril de 1931






Augusto Fernández - Portada de la revista Cosmópolis (marzo 1931)

 

Augusto - Portada de la revista Cosmópolis (marzo 1931)


Cosmópolis: revista mensual ilustrada fue una publicación madrileña (1927-1931) que ofreció contenido cultural, literario y artístico. En 1931, publicó números clave como el 41 (junio) y el 42 (julio), reflejando la transición cultural durante la proclamación de la Segunda República, aunque no se publicó en febrero de ese año.

(Memoria de Madrid)



Augusto Fernández Sastre (Logroño,  1887 - Ciudad de México, 1975) fue un dibujante y pintor español.



13 de abril de 2026

«Palavras africanas»

 

Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.

(Crença dos habitantes de Matimati)


O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.

(Fala de Tuahir)



Leído en Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Caminho, Lisboa, 8ª edição, 2004 (1ª edição, 1992)